Memórias de um repórter de Polícia

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Tibério Vargas Ramos: repórter de Polícia da Folha da Tarde hoje é contista policial

Nascido em Alegrete, em 1948, Tibério Vargas Ramos veio para Porto Alegre estudar Jornalismo. Entrou na Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, em 1968, e no ano seguinte era repórter de Zero Hora. Em 1970, passou para a Folha da Tarde, onde ficou até 1980, como repórter de Polícia. Em 1981, passou a editar Polícia no Correio do Povo de Breno Caldas, até a empresa fechar, em 1985, quando voltou para a Zero e ficou até 1992. Foram 24 anos em redação de jornal.

Desde 1977, leciona Redação e Edição em Jornalismo e Relações Públicas na Famecos, onde se formou em 1971. A partir do ano passado, começou a publicar livros inéditos que escrevia há anos, em exercício solitário, com disciplina e perseverança. Em 2012, a Editora AGE editou o romance “Acrobacias no Crepúsculo”. Agora em 2013, estão saindo mais dois livros, com o mesmo selo, “Contos do tempo da máquina de escrever” e a novela literária “A Santa Sem Véu”, com lançamentos já marcados nas feiras do livro de Tramandaí e Capão da Canoa. “Dizem que a gente tem de aproveitar porque só tem uma vida. Já vivi uma vida como repórter de Polícia, ainda vivo uma vida como professor e estou começando uma terceira vida como escritor”, afirmou Tibério ao Correio do Brigadiano. Ele relata uma das muitas histórias de seu tempo de repórter especial de Polícia na Folha da Tarde:

Tapa na mulher

“Um barbeiro estava preso havia 18 anos por ter dado um tapa na mulher. A informação chegou na redação da Folha da Tarde através do delegado de Camaquã. Fui até lá na companhia do saudoso fotógrafo Damião Ribas, aquele de topete estilo Elvis. Passamos pela delegacia, onde conheci o Cadilac do delegado. Não era novo, tinha duas décadas de uso, mas fiquei impressionado com o estofamento vermelho e a antena elétrica, nunca vira uma igual. O policial relatou o que sabia, posou para foto segurando uma carabina e nos encaminhou ao Presídio Municipal.

Encontrei o apenado andando pela cadeia. Baixo, calvo, um pouco gordo, simplório. Não houve nenhuma restrição para entrevistá-lo. Até os guardas se mostravam sensibilizados. Era 20 de junho de 1972. Fala mansa, tímido, contou que dera um tapa na esposa porque ela o desobedecera e acendeu um cigarro na sua frente, oferecido por uma amiga, em um domingo à tarde. Havia lhe dito que não ficava bem uma mulher decente fumar. Arrancou-lhe o cigarro da boca e o jogou pela janela. Furiosa, ela teria tentado arranhá-lo no rosto e ele reagiu. Garantiu que o tapa não foi forte, pegou no pescoço, mas ela se desequilibrou e caiu num monte de lenha. Logo se arrependeu, assegurou, mas era tarde. A agressão ocorreu em 1954, não recordava a data. O certo é que fora no primeiro semestre. Lembrou que quando Getúlio Vargas se matou, em 24 de agosto, ele já estava detido. Processado por lesões leves, foi absolvido, mas pegou um ano de medida de segurança, por ser considerado desequilibrado e perigoso. Circulava um boato: recebeu pena tão rigorosa porque sua esposa era faxineira na casa do juiz. Não coloquei a informação na reportagem por não conseguir comprová-la. Refiro-me agora… Passaram-se 40 anos, e tudo prescreveu.

Pena de medida de segurança exige que o sentenciado seja submetido a exames psiquiátricos periódicos, anuais, para ver se ele se encontra apto para voltar ao convívio social. Durante os 18 anos, o réu foi submetido a apenas duas perícias. Foi esquecido no Manicômio e depois na Colônia Penal. Nenhum familiar o procurou durante todo este tempo. A mulher casou de novo. Quando ele foi transferido para o presídio de sua cidade, as duas filhas foram visitá-lo, em março. A mais velha, Célia, de 20 anos, tinha dois anos quando o pai fora preso e a outra, de 18, ele não conhecera, nem sabia o nome, pois a esposa estava grávida na época. Ambas não voltaram mais. Louco ele não parecia ser. Tanto é que cortava o cabelo e a barba dos presos, brigadianos e agentes penitenciários na cadeia. Ninguém tinha medo de dar o pescoço para a navalha afiada do barbeiro. Publicada a matéria na Folha, repercutiu na imprensa nacional.

O Jornal do Brasil, do Rio, chegou a escrever um editorial intitulado “Justiça injusta”. O apenado foi imediatamente solto e quiseram me botar na prisão no lugar dele. Não é brincadeira, foi verdade.

No livro Balé Proibido, o ex-senador Paulo Brossard cita este caso como uma das maiores aberrações jurídicas cometidas durante a ditadura militar. Nunca contestaram a veracidade da matéria, simplesmente por ser verdadeira, mas eu e o Ribas, como repórteres, e o delegado, como informante, fomos enquadrados, a pedido do Ministério Público, acreditem, na famigerada Lei de Segurança Nacional por indispor o povo contra um Poder da União, no caso, o Judiciário. Nós três enfrentamos um Tribunal Militar. Não vou dizer que diante daquele conselho de sentença todo de verde oliva não senti um frio na barriga. Se fôssemos condenados, sairíamos presos do tribunal; a Justiça Militar não tinha a prerrogativa de recorrer em liberdade. O promotor civil pediu a condenação, mas fomos absolvidos por unanimidade pelos coronéis. Nunca sequer cogitei em pedir reparo por dano moral. Não quero ser gigolô da ditadura como tantos famosos por aí. Fica apenas o orgulho de tê-la enfrentado no jornalismo e na militância cidadã”.

 

A jaqueta rasgada

“Treze de junho de 1977. Frio ameno e tarde de sol. Lagarteávamos na frente do Palácio da Polícia quando desce de uma viatura um rapaz escoltado. O fotógrafo Galeno Rodrigues, do meu lado, já foi fotografando. Era praxe, na época. Primeiro se garante a fotografia, depois se vê de que se trata. O detido é levado direto à Delegacia de Homicídios, no primeiro andar. Coisa boa, não é. Fecham a porta, trancam o acesso da imprensa. Só mais tarde, os repórteres são chamados para a apresentação do detido no gabinete do delegado.

Já sabíamos que ele tinha matado a tiros um consultor jurídico do Estado, de 60 anos, na avenida João Pessoa, imediações do campus da Ufrgs. Uma bala perdida ainda feriu uma senhora de 57 anos em uma parada de ônibus. O vínculo entre o morto e o autor dos disparos, de 21 anos, era a irmã dele, uma advogada de 35 anos. O consultor do Estado e a colega tinham um caso. Enfrentavam fase de difícil relacionamento. O irmão teria vindo do Interior para dar proteção a ela.

O certo é que os cunhados se encontraram na rua e discutiram. O garoto alegou legítima defesa. Assegurou que o consultor sacou de uma navalha e tentou feri-lo. Sua jaqueta foi mostrada à imprensa. Estava rasgada, chegou a atingir o macacão que usava por baixo, mas não o feriu. Como reação, ele atirou. Muito estranho. Diria inverossímil. Um alto funcionário do Estado andando na rua armado de navalha? Arma de marginal, de perigoso manuseio e cortes dilacerantes. Bem, era esta a versão.

Estou na redação da Folha da Tarde, redigindo a matéria. A pobre Olivetti é que sofre. Balanço a cabeça, incrédulo, inconformado. De repente entra eufórico o Galeno, com as fotos que tinham sido reveladas e ampliadas. O preso chegando na Polícia e depois apresentado na delegacia. Na primeira, a jaqueta intacta. A Folha saiu com as duas fotos do criminoso e o incrível detalhe. Matéria assinada pelo Galeno e por mim.

Saí a campo e descobri tudo. O delegado tinha sido colega de faculdade da pivô do crime e foi responsabilizado. Acabou processado e demitido do serviço público. Algum tempo depois dividimos o mesmo local. Eu almoçava no antigo restaurante típico gaúcho Tio Flor, na avenida Getúlio Vargas, chuleta rio-grandense, era só o que eu comia, bom e mais barato, e o vi numa mesa. Foi o dia em que tive medo. Fiz que não vi e ele talvez tenha feito o mesmo. Quando voltei a espiar, fora embora, felizmente.

Galeno, não sei mais dele. Era baixo, retaco, treinava boxe, boa gente. A última vez que tive notícias, vendia pedras preciosas no Brasil central. Talvez mais arriscado do que escancarar uma fraude na Polícia”.

 

Fiz até fotonovela

“Acreditem: fiz até fotonovela em reportagem policial. Conto como foi. Dia 10 de julho de 1980, uma sexta-feira, a Zero Hora publicou um anúncio chamando para a leitura da edição dominical. Dizia que o Crime do Alto da Bronze seria todo contado em detalhes, em uma história em quadrinhos. A morte da menina Eliete, de sete anos, emocionou a cidade naquele mês. A amante desprezada do pai da garota conseguiu retirá-la do Colégio Paula Soares, no meio da aula, às 9h da manhã, sob o argumento de que a mãe a chamava. Inocente, a criança saiu pela rua de mão com a mulher. Só foi notar que estava sendo sequestrada quando pararam na frente de um edifício estranho, na escadaria da rua 24 de Maio. Não quis entrar e foi empurrada para dentro do prédio, onde acabou sendo morta no apartamento da raptora.

Eu tinha morado em uma pensão, naquela escadaria, durante todo o ano de 1968, quarto minúsculo, lembro do banheiro coletivo no corredor, dureza. Voltei a subir os degraus de pedra que tão bem conhecia, conversei com moradores, e localizei uma senhora espírita que assistiu a vizinha da frente puxar uma criança, que resistia, para dentro do edifício onde morava. A testemunha não fora interrogada pela Polícia, pois não contara antes o que viu a ninguém, por não ter dado maior importância ao fato.

A cobertura daquele crime era a maior disputa diária entre a Zero e a Folha. Pensei: querem guerrear em outros campos? Legal, aceito o desafio. Conversei com o repórter Chico Salvadori e o fotógrafo Jurandir Silveira. Expus meu plano: a Zero viria no domingo com uma história em quadrinhos, pois iríamos nos antecipar no sábado com uma fotonovela. Vibrávamos como criança diante de um brinquedo novo. Mas não era fácil colocar em prática. Além das dificuldades naturais, tudo teria de ser feito naquela tarde.

Começamos pelas armas do crime. Uma delas era uma estatueta de gesso. Óbvio que a Delegacia de Homicídios não emprestaria para a nossa produção. Deixa comigo, disse o Jurandir. Foi até a Polícia e fotografou a cerâmica em primeiro plano. No jornal, ampliou a foto da peça em tamanho original e a enrolou, formando o cilindro perfeito, como era a estatueta. Só que em papel fotográfico. Com ela, a menina levou o primeiro golpe na cabeça. A assassina terminou de matá-la com um batedor de bife. Aí, era fácil encontrar um igual.

Faltavam os artistas. Conseguimos convencer a repórter Leila Weber a fazer o papel da criminosa e ela ainda arrumou a criança que seria a vítima. A primeira foto foi o rapto na frente do colégio. A seguir, a resistência da menina em entrar no edifício da desconhecida. Reproduzimos as cenas do crime no próprio apartamento da Leila, na rua dos Andradas. A garota levou primeiro a pancada com a estatueta de gesso, pelas costas, caiu no chão e passou a ser agredida até a morte com o martelo de amaciar bife. A ‘fera’, como a qualificamos na época, enfiou um saco plástico na cabeça ferida, para que o sangue parasse de escorrer, e escondeu o cadáver em uma caixa de ferramentas. Ficou ali 36 horas, até que um filho dela aceitou ajudá-la a se desfazer do corpo, durante a noite.

Quando chegamos neste ponto da fotonovela, já era noite também. O cadáver tinha sido jogado em um mato no bairro Sarandi. Mato é mato, pensei. Não vamos até lá. Na esquina da Andradas com a Caldas Júnior, onde hoje está oShopping Rua da Praia, havia um terreno baldio, tomado por arbustos, desde que o Grande Hotel incendiou em 1967 e os escombros foram demolidos. Ali reproduzimos a cena final. Mãe e filho retiraram a vítima do porta-malas de uma Brasília, por sorte o mesmo carro usado à época pela reportagem policial, e jogaram o corpo em meio a macegas.

O cúmplice, que havia jantado com um copo de vinho para criar coragem, vomitou, o cheiro da menina em decomposição estava insuportável. Quem fez o papel foi o nosso motorista, compenetrado no papel de artista. No sábado, a Folha circulou com a fotonovela em duas páginas e enorme chamada de capa. No domingo, a Zero não publicou a história em quadrinhos.

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Publicado por em mar 1 2013. Arquivado em 2. Não policiais, HISTÓRIAS DE VIDA. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Comentários e pings estão desabilitados.

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