O termo “brigadiano”

Resumo histórico do vocábulo brigadiano

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É difícil precisar o momento do surgimento desse vocábulo. Necessita de uma pesquisa técnica elaborada por especialista. Porém tenho uma vivência corporativa de quase quarenta anos, tenho coletado dados e com algumas buscas informais, nesse período, posso traçar uma linha de direcionamento de como o vocábulo se formou, suas transformações e influências nestes últimos 90 anos.

O vocábulo brigadiano mantém a mesma ambivalência de quando surgiu, ou seja, para uma parcela da população é entendido como algo ruim e para outra como um valor positivo. Ou seja, ele é um termo popular, cunhado pela população. Ele emerge da sociedade e não da corporação Brigada Militar. Como todas expressões de cunho social ocorre por questões político-ideológicas ou, no caso as policiais, pela vivência marginal de integrantes da sociedade.

 

Por isso mesmo vamos começar, aonde todo mundo vai hoje, quando quer saber um conceito, no Wikipedia da internet. Sinônimos: Os brigadianos também são conhecidos por seus topônimos PM (sigla do próximo sinônimo), Policial Militar, Porco, de Porco, gambé, Contra-Ladrão, Milico, Meganha e Militeco. Os antônimos de brigadiano são: honesto, verdadeiro, gente boa, boa praça, simpático, amigável, compreensivo e aliado da lei.

 

Nos sites de discussão ou relacionamento é bastante profuso o emprego desses sinônimos ou até de dúvidas sobres eles. Ex.: 7/mai/07 – 23:26
eu quando escuto falar de Brigada lembro de Brigada de incêndio; Outro comentário: Aqui no RS não tem Polícia Militar, tem Brigada Militar. O Sul é cheio de frescura…  Já no  site denominado de dicionário informal: sobre o termo brigadiano foi enviado por Jairo (RS) em 02-10-2007. Policial militar (no Rio Grande do Sul). “Queria comprar um bagulho, mas não deu tava cheio de brigadiano na frente da lancheria.”  No Fórum do Cifra Club, consta: Sempre vejo os jornais se referindo a brigadianos pela sigla PM, mas o Rio Grande do Sul não tem Policia Militar, então, é certo ou os jornais erram? Recebeu como resposta:
Depende, a maioria dos jornais, pelo menos de televisão, tem um péem São Paulo ou no Rio De Janeiro, e aqui é muito comum chamar de PM, Gambé, Coxinha e pra baixo. ahahah…

Dos sinônimos, o mais usado pela pré-delinqüência, delinqüentes, familiares e simpatizantes é o de: “Porco”. E ele nada tem a ver, com tanto com o animal, em si, nem com as questões de falta de asseio, pelo qual este termo tem uso, como metáfora, na sociedade. Porco é um derivativo sintetizado da expressão “Pé de Porto”. Essa expressão surge a partir do ano de 1955 quando da criação de um serviço policial,em Porto Alegre, que se estendeu rapidamente para o Interior do Estado. Eram PMs trabalhando em duplas, aos moldes dos “Cosme e Damião” que existiram no Rio de Janeiro e de outros congêneres. O fardamento dos Pedro e Paulo era bem amarronzado, assim seu capacete e também os coturnos. Pela cor e pela sigla identificadora a frente do capacete “PP”, os marginais em seguida cunharam a expressão pela qual passaram a se referir aos policiais militares. Restam mais correntemente “Pesinho e Porco” que sobrevivem desde a metade da década de 50.

 

Já Brigadiano surge na década de 20, ao final da revolução ocorrida no Estado do Rio Grande do Sul, em 1923, conhecida como a “Revolução Assisista”, pelo sobrenome de seu líder Assis Brasil. Os revolucionários cognominados de “Maragatos” e os governistas de “Chimangos”,estes liderados por Borges de Medeiros. Consta que por uma determinação formal do governo, os “integrantes da Brigada Militar” (Grifei) poderiam adentrar aos fundos de campo, ou seja, abrirem as porteiras das fazendas e dali retirarem o sustento para as tropas do governo, apropriando-se de gado e outros mantimentos, bastando legalizá-los com a formalidade de um documento pelo qual o proprietário se ressarciria na Secretaria Estadual da Fazenda do governo.

 

Ocorre que a revolução era uma disputa política das oligarquias rurais do Estado. Fazendeiros contra fazendeiros, o próprio Assis Brasil era proprietário de grandes extensões de terras no Sul. Esse ato governamental permitia que soldados da Brigada Militar assim procedessem e isso quebrava os padrões das relações dos fazendeiros (coronéis rurais) com os políticos e oficiais da BM. Qualquer soldado assim poderia proceder. A vendeta dos espoliados foi cunhar um vocábulo pelo qual expressassem sua indignação. Estava criado o vocábulo “Brigadiano”: aquele que saqueava em nome do governo. Mas a própria mídia maragata não usava o vocábulo. Ele era usado veladamente pelos revolucionários. Terminada a revolução ele passa para o uso das questões de marginalidade policial com o mesmo sentido de pejo dos maragatos.

 

Apesar de grandes personalidades sociais e de intelectuais do passado que integravam a Brigada Militar era comum, até a década de 60, dizer-se que para ser soldado da Brigada bastava ter uma cicatriz forte e visível de luta corporal que comprovasse o destemor de um indivíduo. A revolução de 64, com o poder em mãos militares federais, usando os militares estaduais como sua tropa de choque social, houve um agravamento no uso pejorativo do vocábulo. Mas sempre dentro daquela idéia da ambivalência.

 

Vejamos o excerto de um parágrafo, bastante específico, da entrevista gravada com o jornalista Ercy Pereira Torma, presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), no estúdio de rádio da Famecos, PUCRS, em 04 de outubro de 2005. Ercy exerceu grande parte de sua carreira durante o regime militar, mas convivia bem com o regime. Segundo ele, os jornalistas deveriam saber separar os fatos. Eles estavam lá para cobrir o movimento e não participar dele. “Tinha colegas que chegavam e gritavam e depois chegavam na redação como grande vantagem: apanhei da polícia. E eu dizia:” Bem feito. Tinha que apanhar mais. Tu tá lá pra trabalhar, não pra chamar os brigadianos de brigadiano pé de porco”.

Brigadiano poderia ser considerado um termo maldito. Seu uso o era somente pelos detratores da Brigada Militar buscando maculaar a imagem de seus integrantes. E a instituição através de seus líderes e comandantes tinha plena ciência dessa questão. Tanto que o termo não tinha uso interno na corporação. Para agravar o termo vai subsidiar nas relações com estudantes e intelectuais anti-revolucionários de 64 reforçando seu uso pelos detratores da instituição. Agora, novamente voltando a sua origem, por questões político ideológicas.  Até este momento era tida como ofensiva aos integrantes da Brigada Militar.

 

Mas também já havia uma construção de expressão cultural da sociedade com alguma produção de próprios “integrantes da Brigada Militar”. Ao início grifei esta expressão, posta entre aspas ao final da frase anterior, por que ela é definidora. A documentação oficial institucional da Brigada Militar, até a década de 70, nunca referiu brigadiano. Era temerário o emprego de um termo socialmente com conotação duvidosa. Inclusive, internamente, quando um policial militar apresentava um desvio de conduta, era chamado por seus comandantes na frente de seus colegas de Brigadiano. Expressões como: O que é que está havendo contigo Brigadianao? O que é que tu andaste fazendo Brigadiano? Esse era o indicativo de que ele teria que dar algumas explicações convincentes de conduta.

 

Mas também é possível se processar a recuperação de um vocábulo que estava fadado a ser eternamente mal visto. A revisão não é da instituição, por seus administradores, ela é da sociedade. Mas só pode acontecer se a instituição tem uma função social válida e a bem executa. A função plena da atividade de policiamento ostensivo, a partir de 1967, em todo o Estado, de direito, possibilitou que a instituição tivesse interlocução mais direta com diversos extratos da sociedade. O principal foi o trabalho preventivo de trânsito, por palestras, à época, feitas exclusivamente por oficiais nas Escolas.  Daí resultou uma operação anual denominada “Volta a Escola” que atuava ao início de cada semestre escolar. E partir dela uma série de outras operações passaram a existir. “Papai Noel” para o policiamento ostensivo de final de ano. Operações mais dirigidas ao trânsito, desarmamento, barreiras e outras, sendo a mais famosa e requisitada: “a Operação Golfinho” referente ao policiamento da orla no período de veraneio.

 

As palestras sobre trânsito e as palestras de outros temas de prevenção levaram os oficiais policiais militares jovens da década de 70, para dentro das escolas públicas e privadas – para as salas de aulas a terem contatos com as crianças desde a mais tenra idade e até com os jovens pré-rebelados do 2º grau. Esse contato emulou novas relações sociais. Em breves tempos começou-se a ver o policial militar jovem namorando a escolar de 2؟grau das escolas noturnas e, a partir daí, começava o vocábulo a ter transformado seu sentido e as relações da sociedade com os homens de farda ficando diferenciada.

 

Ingenuidade seria se pensar que esses motivos foram suficientes para essa transformação. A sociedade em sentido mais amplo escoima as questões ideológicas e avalia a realidade da prestação de serviços de uma instituição. Por outro lado um instituição como a Brigada Militar, que se encheu de glórias como Força Terrestre, do início do século XX até a década de 30, necessitando transformar sua essência operacional, com quadros qualificados, encontra integrantes capazes de fazendo a leitura da sociedade, expressarem culturalmente a capacidade de adaptação institucional a novas situações. Assim sociedade e instituição por caminhos diversos propugnam as transformações. Vou analisar sobre quatro variáveis dessa transformação do vocábulo: os documentos administrativos; o movimento tradicionalista; a produção literária; e a mídia.

 

A documentação administrativa da Brigada Militar nunca tratou os servidores de brigadianos. Ela sempre fez referência, desde o final do século XIX, à expressão: integrantes da Brigada Militar. Na década de setenta, após o advento do DL 667, de 2jul67, se tornou usual a expressão policial militar. Ainda hoje não é usual na administração o vocábulo “brigadiano”. Ele não é condizente com o primado administrativo e por isto não é usual na documentação administrativa da Corporação.

É através da literatura que o vocábulo brigadiano vai adentrar, por vez primeira´, nos quartéis. O livro “Brigadianos” editado em 1939, pela editora do Globo, de Porto Alegre, de autoria do Cel Alfredo Gomes Jacques, à época capitão, apresenta contos e causos sobre o pessoal da Brigada Militar. Descreve situações do cotidiano da vida de seus personagens todos integrantes da Brigada Militar. A partir deste livro começam a aparecerem poesias falandoem brigadianos. Em1959, o então tenente Carlos Jonatas Spalding, publica pela gráfica da Brigada Militar, um opúsculo, tipo poket, de cunho ético, denominado “Os 10 mandamentos do brigadiano”. Em 1977, o Cel José Hilário Retamozo, então capitão, organiza “in memorian” um livro de ensaios e crônicas, então tenente Carlos Jonatas Spalding, com o nome de “Antologia Brigadiana”; no mesmo ano (77) Retamozo publica seu opúsculo de poemetes em abecedário, com o nome “abc do Brigagiano”; O Cel Retamozo iria, ainda organizar uma série de “Antologia de Poetas Brigadianos” 1ª em dez de 85, 2ª em set de 87, 3ª em jul de 93 e a 4ª em mar de 2000.

 

É no movimento tradicionalista gaúcho (MTG) que a expressão brigadiano adquire alto significado positivo e de afetividade. A cavalaria brigadiana e o apoio que o tradicionalismo encontra na corporação criam uma simbiose. O MTG teve sua criação e formalização em 1948 e, é a partir dele, ocorre uma profusão de poesias e músicas com exaltação ao brigadiano. São Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) em todo o Estado, mais de 2 mil. Isso faz com que em todos aquartelamentos, mesmo de pequenas frações, também seja construído um (pequeno) Galpão Crioulo, como se identificam os locais de reuniões dos tradicionalistas gaúchos.  E nestes oratórios tradicionalistas, dentro e fora dos quartéis, o brigadiano é exaltado e a Brigada Militar cultuada.

 

Já o vocábulo “brigadiano” usado para a denominação de mídia impressa (jornal) só vai surgir, em 1995, com o informativo produzido para a Brigada Militar pela Polost Editora (de minha propriedade) denominado “Mensagem Brigadiana”. Este informativo, tamanho ½ ofício, com até 32 páginas, circulou por 19 edições. De janeiro de 1995 até maio de 1996, quando o “Mensagem Brigadiana” é substituído pelo jornal “Correio Brigadiano”. O novo jornal em tamanho tablóide que foi concebido, à época, pedido do comando da própria corporação. E o vocábulo já se constituiu numa “marca” que há 15 anos opera para a positividade do conceito que ela representa.

 

Vanderlei Martins Pinheiro – TenCel

Jul 2010

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