Letras brigadianas

Letras brigadianas: uma estrada viva no tempo

 

A Brigada Militar, ao longo de sua história republicana, foi honrada por integrantes de seus quadros, que se preocuparam em transformar as manifestações culturais e técnicas da instituição e de seus homens, em livros e revistas. Seria conveniente categorizarmos nossas letras em três campos: a história, a literatura e as obras técnicas.

 

Começamos pela história. Ao início do século passado o major Miguel Pereira inicia a sedimentação de nosso processo histórico. Ele lança o primeiro livro, que será precursor de uma série de outros, sob a mesma denominação de “Esboços históricos da BM”. Publicou dois esboços, respectivamente, no ano de 1917, o volume primeiro, abrangendo o período histórico que vai de 1896 até 1907 e no ano de 1919, o volume segundo, referente aos anos de 1907 até 1918. Ambas as obras impressas nas oficinas gráficas da Livraria Americana,em Porto Alegre.

 

No ano de 1950 o Cel Aldo Ladeira Ribeiro reedita os dois volumes produzidos pelo Major Miguel Pereira, consolidados em uma única obra, denominada de “Volume I” que trata da história da BM de 1896 até 1918; No ano de 1953, o Cel Aldo Ladeira Ribeiro lança o volume II, dessa nova formulação do Esboço Histórico da BM, abrangendo o período de 1918 até 1930. Ambas obras impressas nas oficinas gráficas da Imprensa Oficial do Estado, hoje Corag.

 

Em 1972 o Cel Hélio Moro Mariante, sintetiza a história, posta em fontes por seus antecessores, publicando “Crônica da Brigada Militar”, pela Corag; Ele além de pesquisador de história foi ensaísta folclórico e deixou uma grande quantidade de obras publicadas. Mas, voltando ao traçar da linha do tempo brigadiano, o Cel José Hilário Retamozo resgata os originais, do 3º volume do Esboço Histórico, do Cel Aldo Ladeira Ribeiro, que trata do período de1930 a1961, e os publica no ano de 1987, por ocasião dos festejos do 150 anos da Revolução Farroupilha, pela Evangraf, sob o patrocínio do MBM Previdência e Seguros.

 

Nos anos que se seguiram houve profusão de publicações, inclusive históricas, novos pesquisadores na Capital e atéem Santa Maria, onde os Cel Hermito e Cel Silveira, publicam obras tipo o “esboço”, mas de cunho reginonal. Destacam-se desse período, como textos inovadores, “Brigada Militar evolução e rumo” do Ten Cel Juarez de Oliveira Chagas, “A Brigada Militar e a luta pela sobrevivência” do Ten Cel Santos Roberto Rocha e a “BM no policiamento ostensivo” co-autoria do Major Pércio Brasil Álvares e outros. Atualmente a obra de história da corporação que se encontra em uso para cursos e para consumo em geral é da lavra do Cel Moacir Almeida Simões intitulada: “História da Brigada Militar – para fins didáticos  e de palestras”.

 

A literatura, inclusa aí a poesia, se expandiu, inicialmente, a partir das publicações periódicas.  A história literária da corporação está contada, por primeiro plano, nas revistas e jornais brigadianos. Ao começo do ano de 1926 surge a revista Pindorama que circulou até meados de 1928. Era uma revista, tamanho tablete, com aproximadamente 20 páginas por edição. Seu conteúdo era de variedades e com a participação de todos os níveis hierárquicos. Havia transcrições e traduções de autores contemporâneos nacionais e internacionais.

 

Os brigadianos ali exerciam suas críticas literárias, mostravam suas poesias, além de processarem seus escritos históricos. Esta revista foi o cadinho de formador de nossos primeiros escritores e suas obras. Temos o registro dos livros de poesias “Trevos” do Cel Gilberto de Carvalho Bueno, em 1927 e, “Poemas da dor” do Cap Itamar Marques Guimarães, em 1928, entre outros dos mesmos autores, em anos subseqüentes, além do Cel Antônio Dias de Oliveira, com “Ermo da saudade” em 1936. Os autores brigadianos eram atuantes em centros literários. O Cel Bueno, da Casa do Poeta, com o pseudônimo “Filho dos pampas” e o último, Cel Antönio, como Membro da Academia Sul Rio-grandense de Letras. Merece destaque o trabalho do Cel Alfredo Gomes de Jacques, que de 1938 à a973 publicou livros de contos como “Brigadianos” e  “Os provisórios”, entre outras obras. Há de se ressaltar que Alceu Wamosi, grande referência literária de nosso Estado, era oficial da BM, morrendo jovem e sendo enterrado com a farda brigadiana. Uma outra ligação com a cultura é o falecido Sgt Guimarães, que também produzia poesias, pertence a tropa da BM e era irmão do grande nome das letras gaúchas Josué Guimarães.

 

Houve também a revista Brigada Gaúcha que circulou de agosto de 1954, até final do ano de 1958. Era uma revista tamanho book, com aproximadamente 90 páginas por edição. Seu conteúdo era de variedades. Tratava desde as questões técnicas PM, ou domésticas do lar, até asuntos nacionais e internacionais pertinentes ao universo policial de atualização. Na década de 60 houve uma tentativa de ser reeditada esta mesma revista com o nome de Revista da Brigada. Foi em 1964 e só circularam 4 edições.

 

Hoje são dezenas de brigadianos que editam seus livros de poesias ou causos. Também há representatividade de brigadianos em Academias literárias e no própria Academia Riograndense de Letras. Os três nomes mais destacados da Brigada na atualidade são o Cel José Hilário Retamozo, o Cel Moises Silveira de Menezes, o Cel Joaquim dos Santos Moncks e o Cel Antonio Silveira da Silva.

 

A produção de obras técnicas brigadianas, em razão do uso pela Brigada Militar de todos os regulamentos do Exército, aconteceu com três momentos. Até a década de 60, inclusive, a própria corporação editava os manuais que lhe complementavam conhecimento, como o de armas que ela adotou fora das especificações do EB. É o caso das metralhadoras Hotquis e Swartlouse e outros equipamentos. Ao final da década de 60 surge o Manual dos Destacamentos do Cel Luiz Iponema, editado pela Sulinaem Porto Alegre. ABrigada editou diversas reimpressões do Manual do Policiamento Ostensivo produzido em conjunto com a IGPM.

 

Mas foi a partir da década de 80 que oficiais começaram a produzir, autonomamente, seus conhecimentos técnicos profissionais de polícia militar. Muito desse desenvolvimento deve-se à Revista Unidade, fundada em 1984 pelo Ten Cel Santos Roberto Rocha. A Unidade é um veículo que está há 22 anos em circulação, especializada em assuntos técnicos profissionais, sediada no Instituto de Pesquisa da BM e conhecida fora do Estado como a Revista da Brigada. Em1987 aComissão de organização dos festejos do sesquicentenário da Revolução Farroupilha, presidida pelo Cel José Hilário Retamozo, deu ênfase à produção de livros. Foram lançados mais de 40 títulos entre 1987 até 1990. Nesta mesma linha de raciocínio, foi também, à Associação Pró-Editoração à Segurança Pública – APESP, fundada em 1986, pelo Ten Cel Vanderlei Martins Pinheiro, outro fator de propulsão da produção de obras. Mais recentemente, o jornal Correio Brigadiano, em circulação há dez anos, consolida noticiando o lançamento ou existência de todos livros, não só técnicos, mas produzidos por brigadianos e outros servidores da segurança pública.

 

Hoje oficiais e praças da BM publicam obras pelos mais diversos selos editoriais. Mas foi a partir de 1993, com o surgimento a Editora Polost, que se especializou em obras destinadas à segurança pública, que tal fenômeno se desencadeia. A Polost é o braço operacional da Apesp – ONG cultural dos brigadianos que tem por finalidade desenvolver literatura e obras técnicas. Começa uma nova fase da história das letras brigadianas, autônoma não mais pedinte de favores ao poder ou a particulares. As Antologias de poetas brigadianos se tornam costumeiras. Inicia-se a publicação das antologias de contos e o desenvolvimento de obras técnicas e literárias para outras instituições da segurança pública gaúcha. Todo esse avanço aconteceu por iniciativa e idealismo de um grupo de brigadianos que entenderam a proposta dos chamados “jovens Turcos”, do início do século no Exército Brasileiro, e resolveu aplicar na Brigada Militar, uma mini revolução cultural, aos moldes da Revolução Cultural do Exército Brasileiro. Mas esta já é outra história.

Vanderlei Martins Pinheiro – TenCel

Jul 2006

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